

O feminicídio da contadora Laina Santana Costa Guedes, 37 anos, assassinada pelo companheiro em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), evidencia uma triste realidade que atinge mulheres em todo o Brasil. De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 consultados pelo BNews, 8 em cada 10 vítimas de feminicídio são mortas por companheiros ou ex-companheiros, e mais de 63% dessas mulheres são negras.
O crime contra Laina ocorreu na última terça-feira (19), no apartamento onde ela morava com o companheiro e as duas filhas, de 5 e 12 anos. A vítima foi morta a marteladas na frente das crianças. A mais velha ainda tentou proteger a mãe, mas acabou agredida pelo pai. Laina chegou a ser socorrida, porém, não resistiu aos ferimentos.
O suspeito, identificado como Ramon de Jesus Guedes, tentou fugir pela janela do apartamento, mas foi contido por moradores do condomínio e preso em flagrante.
A tragédia que tirou a vida de Laina confirma os dados expostos no Anuário de 2025. O levantamento divulgado anualmente reúne informações das secretarias estaduais de Segurança Pública, além de registros das polícias civis, militares, federais e outras fontes oficiais.

Outro dado alarmante exposto no Anuário é que 70,5% dessas mulheres tinham entre 18 e 44 anos. Além disso, a própria casa se transforma, na maioria das vezes, no cenário do crime, com 64,3% dos casos.
Em 97% dos casos, os autores do feminicídio são homens. Somente no ano passado, foram registrados 3.870 novos casos de tentativas de feminicídio, o que representa um aumento de 19% em relação ao ano anterior.
Mas os sinais de violência costumam aparecer muito antes da consumação do crime. O Anuário identificou mais de 95 mil registros de stalking contra mulheres, que é a prática de perseguição contra uma vítima em potencial, registrando um crescimento de 18,2%. Já a violência psicológica somou mais de 51 mil ocorrências, um aumento de 6,3%.
Já os números de ameaças foram acima de 747 mil novos casos. Ou seja, muitas mulheres passam por múltiplas formas de violência psicológica e perseguição antes de serem assassinadas.
Quando se analisam os números relacionados à segurança das mulheres que solicitam medidas protetivas, a reportagem especial trazida pela BNews Premium, editoria de reportagens especiais e investigativas do BNews do último dia 3 de agosto, revelou, com base em dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que a Bahia é o estado que mais demora a conceder essas medidas no Brasil. Além disso, o ente da federação revogou mais de 7 mil benefícios concedidos às vítimas de violência.
Mancha “de sangue” não sai
Conforme o Anuário de Segurança Pública, entre 2017 e 2024, foram registrados 790 feminicídios na Bahia, o que equivale, em média, a uma mulher morta por violência de gênero a cada três dias.
No comparativo recente, em 2023, foram contabilizados 108 feminicídios, um aumento de 0,9% em relação a 2022, que registrou 107 casos. Em 2024, o estado registrou 111 novos casos de feminicídio. Dessa forma, aproximadamente 2 em cada 5 mulheres vítimas de homicídio na Bahia foram assassinadas em contextos de violência de gênero.
Para concretizar o ato, diversos instrumentos são usados, confira a lista abaixo:
- 45,5% foram cometidos com objetos perfurocortantes
- 26,3% com armas de fogo
- 8,1% com objetos contundentes
- Outros instrumentos somaram 20,2%
O perfil do feminicídio na Bahia reflete os números nacionais. Entre as principais vítimas estão mulheres negras, com idade entre 30 e 49 anos. Cerca de 72,1% foram mortas dentro de casa, e 84,4% das agressões foram cometidas por parceiros íntimos. No ano passado na capital baiana foram registrados 20 casos de feminicídio.

Agosto Lilás
O mês de agosto é marcado por iniciativas que visam combater a violência contra mulheres. Isto ocorreu em homenagem à criação da Lei Maria da Penha, que foi sancionada em 7 de agosto de 2006.
Na Bahia, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) inaugurou um espaço de acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica e de gênero. A iniciativa foi lançada na segunda-feira (11) e integra o projeto “Luto por Elas”. O espaço é permanente e está localizado no Shopping Bela Vista.
No local, as mulheres recebem atendimento realizado por profissionais qualificados, além de suporte psicológico, contando com a participação de estagiários das áreas de Psicologia e Serviço Social.
Em nota ao BNews, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) reforçou o repúdio à violência contra as mulheres e destacou as ações de combate ao crime. “A Secretaria repudia veementemente a violência de gênero e atua também no viés educativo, com ações como o lançamento da cartilha ‘Meu Namoro é Massa’.”
Segundo a pasta, o material didático tem como objetivo “combater relacionamentos abusivos, com abordagem transversal do tema, voltada a adolescentes e jovens”.
A SSP também destacou que, entre os anos de 2023 e 2024, a Bahia registrou uma redução de 7,8% nos feminicídios, e que as ações estão sendo intensificadas para ampliar a queda dessas ocorrências”.
Confira nota da íntegra da SSP
A Secretaria repudia veementemente a violência de gênero e tem trabalho no viés educativo de conscientização, com ações como o lançamento da cartilha “Meu Namoro é Massa”, promovido nesta quinta-feira (21), na Escola Barros Barreto, no bairro de Paripe, em Salvador.
O material didático tem como objetivo combater os relacionamentos abusivos, com abordagem transversal do tema, visando os adolescentes e jovens.
A SSP também, nos últimos dois anos e meio, fortaleceu a rede de acolhimento com a criação do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Vulneráveis na Polícia Civil e com a transformação da Operação Ronda Maria da Penha em Batalhão, garantindo ampliação do efetivo e também do acompanhamento de mulheres com medidas protetivas.
Acrescenta ainda que em 2024, a Bahia contabilizou uma redução de 7,8% dos feminicídios, na comparação com 2023, e que as ações têm sido intensificadas visando a ampliação da queda de ocorrências.
Por fim, a SSP destaca que informações sobre casos de violência doméstica podem ser enviadas, com total sigilo, através do telefone 181 ou pelo site www.disquedenuncia.ssp.ba.gov.br. O anonimato é garantido por lei.
Arquivo/Agência Brasil