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Em entrevista exclusiva ao BNews, o professor Cláudio André faz uma análise do cenário político atual no Brasil e na Bahia. O cientista político revela os impactos desse panorama nas eleições de 2026. Além disso, ele aponta quais os temas serão decisivos no pleito do ano que vem.
Cláudio André de Souza é graduado em Ciência Política pela Universidade de Integração Internacional da Lusofania Afro-Brasileira (Unilab). O pesquisador faz parte do Programa de Pós-Graduação -PPG em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

BNews: Como o cenário político nacional atual pode influenciar diretamente as eleições no Brasil e na Bahia em 2026?
Cláudio André: A Bahia tem apresentado um padrão de representação política nas últimas décadas que tenho chamado de uma espécie de “lulismo baiano”, isto é, um alinhamento da liderança do presidente Lula como parte “casada” da dinâmica de competição política e nível estadual. Basta perceber que o aumento da prevalência da força lulista na Bahia impulsionou a vitória de Jaques Wagner em 2006, mas na eleição anterior o petista obteve quase 39% dos votos com uma estrutura enxuta de alianças e tempo de televisão. Então, este cenário nacional tende a ser um grande protagonista nas eleições de 2026. A pesquisa Quaest divulgada semana passada (22) aponta que Lula tem 60% de aprovação na Bahia e Jerônimo 59%. Neste momento, o desafio do governo federal de ampliar a popularidade de Lula na Bahia vai influenciar decisivamente a capacidade do governador Jerônimo de surfar em um contexto mais positivo na sua avaliação. Também na pesquisa Quaest, 40% dos eleitores preferem um governador eleito aliado de Lula, 9% aliado de Bolsonaro e 49% que seja um governador mais independente do próximo presidente. Certamente, Lula vai fazer da Bahia uma base eleitoral estratégica para a sua reeleição, o que tende a fortalecer Jerônimo para a próxima disputa eleitoral.
BNews: A segurança pública é um desafio nacional para os governantes. Qual será o impacto desse tema nas próximas eleições?
Cláudio André: A gente vive um fenômeno onde governadores e prefeitos tem sido mais cobrados por soluções concretas na segurança, o que eleva o tema da segurança ao centro do debate eleitoral, exigindo que os políticos apresentem uma visão mais consistente quanto às soluções em torno de ações governamentais mais eficazes. Na eleição de 2024, já vimos que os prefeitos de todo tipo de porte de cidade se viu na missão de assumir a responsabilidade em se comprometer com ações na área da segurança. Sem dúvida, a percepção de que estamos vivendo uma epidemia de violência e avanço da criminalidade levará os eleitores a redobrarem as atenções ao que os políticos forem tratar da segurança. Na Bahia, a segurança é uma pedra no sapato do governo estadual, que tem falhado em não apresentar um plano mais consistente de ações de maior impacto na sensação de segurança no dia a dia dos cidadãos. Em 2023, o governador Jerônimo Rodrigues teve a oportunidade de começar a gestão elaborando um plano mais ousado de segurança que mirasse em um novo modelo de inteligência das forças policiais e de combate ao crime organizado. A área da segurança foi rejeitada por 45% dos eleitores baianos, um dado alarmante.
BNews: Qual a análise que você faz da oposição no Brasil e na Bahia atualmente?
Cláudio André: A oposição no Brasil está dividida em duas alas que possuem dificuldade de conduzir uma estratégia mais ampla para as eleições de 2026. A direita radical ligada ao ex-presidente Bolsonaro tem sofrido abalos desde a tentativa do golpe no 8 de janeiro de 2023. Em geral, a família Bolsonaro ativou o “modo sobrevivente”, mesmo que para isso seja inevitável implodir as instituições. A defesa do tarifaço de Trump em nome de uma suposta anistia a Bolsonaro é um exemplo do quanto o grupo está isolado politicamente, embora tenha ainda a adesão na opinião pública de cerca de um terço dos eleitores brasileiros, um fenômeno de representação política que deixa a direita moderada imprensada em uma estratégia de buscar aderir ao bolsonarismo em 2026 mas de forma parcial em torno dos nomes de Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ronaldo Caiado (União) de Romeu Zema (Novo). A tendência é observarmos como ficará esse pacto de interesses entre uma direita um pouco mais moderada e a família Bolsonaro. Na Bahia, o núcleo de poder é mais estável sob a liderança do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) e o ex-ministro João Roma (PL). Ambos selaram um acordo de paz e sobrevivência para 2026, sendo que me parece que a estratégia dada será buscar um palanque nacional na Bahia, mas isso pode afastar a movimentação de Neto na eleição de 2022 do discurso de independência de chapa presidencial, isso pode afastar eleitores lulistas que estão preocupados com a polarização nacional. Será um movimento calculado, mas que vai expor riscos. O cálculo da oposição também passa em aumentar o padrão de votação nas grandes cidades como uma vacina à derrota prevista nos municípios menores de viés governista.
BNews: A Bahia é um dos principais redutos eleitorais do PT no Brasil e a sigla já está há 20 anos no poder estadual. Você vê sinais de desgaste ou ainda existe um apoio consolidado ao partido na Bahia?
Cláudio André: O PT segue se renovando na Bahia. A vitória de Jerônimo foi a eleição de um político que não possuía uma carreira política calcada nas urnas. Em 2022, ACM Neto já tinha completado 20 anos ininterruptos de disputas eleitorais (conquistou três mandatos como deputado federal e dois como prefeito) com muito destaque em uma carreira meteórica como o herdeiro do grupo carlista na Bahia. Jerônimo foi testado e comprovou a tese de um tipo de hegemonia do PT que está ancorado em um fenômeno de alinhamento eleitoral ao cenário nacional. Mais que isso: Lula é um fenômeno eleitoral como parte das disputas estaduais na Bahia, Pernambuco, Ceará e mesmo em alguma medida em Minas Gerais. Os desgastes são inevitáveis, mas os petistas têm conseguido encontrar oxigênio e formado novas lideranças, mas em qualquer partido são ciclos mais longos. Uma novidade é que a lógica coalizacional dos petistas é radicalizar o equilíbrio político-partidário, exatamente o contrário do que fez o carlismo por décadas centrada na figura de um “chefe” e dono de uma dúzia de partidos como se fossem seus, um claro traço autocrático que levou, inclusive, à migração de lideranças carlistas para grupos pós-carlistas que aderiram à aliança do PT e de Lula na Bahia. Quanto aos maiores desgastes penso que estão no interior do modelo de governança do estado, o que para qualquer grupo político requer muita atenção. O período ampliado de poder sempre exige uma capacidade de renovação e de construção de novas políticas públicas que precisam se atualizar ao longo do tempo. As polícias, o Planserv, o modelo de políticas na área da educação e da saúde são áreas de grande atenção dos baianos e que cobra do tempo força e coragem para mudar diante das novas demandas.
BNews: Quais temas tendem a ser mais decisivos nas eleições de 2026?
Cláudio André: A Bahia viverá uma eleição na qual a oposição vai cobrar no debate público um balanço do desempenho do governo petista no seu ciclo de poder de 20 anos em várias áreas, mas diante do que estamos vivendo a Bahia cobrará mais atenção à área da economia bastante alinear nas diferentes regiões da Bahia, educação, saúde e a segurança pública. São três áreas que retém gastos de consumo por parte das famílias baianas e que cobram mais presença do estado na vida das pessoas.
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